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O que os povos Guarani e sua filosofia teko porã nos ensinam sobre desenvolvimento moral?

No dia 19-04 celebramos no Brasil o dia dos povos indígenas. Um dia que destaca o não apagamento dos povos originários da nossa terra. Nesse dia, e em todos os outros, reverenciar, aprender e ter consciência da estrutura que nos distancia das aldeias e saberes indígenas é um chamado para reflexão e ação. Aproximar-se dos povos originários é encontrar caminhos possíveis enquanto grupo interdependente de outros grupos, sejam eles humanos ou não.

Em tempos de risco para nossa espécie na Terra (nossa espécie mesmo, porque o fluxo da vida continua), encontrar a filosofia teko porã dos povos guarani é como fazer uma revisão moral e ética das nossas escolhas individuais e coletivas.

Partilhamos aqui os conhecimentos da professora indígena Cristine Takuá, que nos convoca a olhar para “outros” modos de viver, aprender e nos relacionar com o mundo, baseado no sistema educativo dos povos guarani: o teko porã.

Ao falar do teko porã, o Bem Viver, a autora nos apresenta uma ética que não se separa da vida. Um modo de existir baseado no equilíbrio, no respeito, na coletividade e na relação profunda com a natureza.

Teko porã é um conceito filosófico, político, social e espiritual que expressa a ideia de grande teia, onde tudo está ligado e interdependente.

Pois bem. Para os povos guarani tudo está interligado. Já para nós, corpos colonizados (le-se: subjetividades desenvolvidas por outro “conjunto” de regras morais e éticas, mais voltadas para o “sonho” individual do que coletivo; lógica de pegar no lugar de compartilhar, de “vencer” a qualquer custo, doa a quem doer), está cada vez mais difícil aliar escolhas individuais e escolhas coletivas.

Explicaremos melhor. De acordo com Vygotsky, La Taille e Piaget, nossos cânones do desenvolvimento infantil (todos homens brancos, que pesquisaram exclusivamente crianças brancas em contexto europeu — devemos parar de estudá-los? Não. Mas precisamos ampliar nossas referências com urgência), moral é basicamente o conjunto de regras sociais às quais estamos todos submetidos para que possamos coexistir. Então, como se aprende isso? Com vivências significativas e experiências em coletivo. Ou seja, logo se evidencia o papel fundamental da escola.

Sendo então a moral o conjunto de normas e regras, quase uma cartilha fundamental da vida em sociedade, o que seria a ética? Ética é como se fosse nossa capacidade de articular o que somos capazes de sonhar, desejar e usufruir junto do desenvolvimento de uma “boa” moral, um senso de coletividade. Aí entra nossa urgência de parar e ouvir quem, muito antes da colonização, traçava junto do todo — da natureza — a ética do bem viver. Enquanto nós, corpos colonizados, sobrepomos a ética individual à ética coletiva, os povos guarani jamais perderam esse fio.

Então, trata-se de abrir mão do prazer individual sempre? Não. Trata-se de entender os limites de até onde se vai nas aspirações, desejos e necessidades individuais. Exemplo: sonho em ascender no trabalho. Legítimo e importante. Mas sei que jamais serei desonesto com colegas. Porém, cada vez mais estamos vivendo esse desalinhamento entre individual e coletivo. Precisamos olhar para povos que jamais, jamais se perderam do “nós”.

Fica então, primeiramente, nosso pedido de licença para citar o que entendemos dos saberes filosóficos dos povos Guaranis, e nossa reverência e urgência de coexistirmos com as 391 etnias indígenas do nosso território Brasil, sonhando pelo resgate e sobrevivência de Pindorama.

Por Marcela von Bentzeen e Paula Fiúza
Núcleo de Relações Etnico-raciais do CLIC!